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A ONU Mulheres é a organização das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres.

Brasil

Campanha Voz Ativa mobiliza imprensa para nomear a violência e fortalecer a responsabilização



17.04.2026


A ONU Mulheres Brasil lança a campanha Voz Ativa | #MancheteSemViés, uma iniciativa voltada a transformar a forma como a violência contra mulheres é noticiada. O objetivo é simples e estruturante: recolocar o agressor no centro da narrativa jornalística, evitando construções que apaguem autoria e reforcem a revitimização, como manchetes em voz passiva do tipo “mulher é morta” ou “mulher é estuprada”.

A proposta parte do entendimento de que a linguagem não é neutra. A maneira como crimes são descritos influencia a percepção pública sobre responsabilidade, urgência e prevenção. Ao “sumir” com o sujeito da violência, a cobertura pode naturalizar o crime e deslocar simbolicamente o foco para a vítima. A campanha defende que dar visibilidade à autoria, quando possível e responsável, é um passo editorial importante para a responsabilização e para a construção de normas sociais que rejeitem a violência.

A Voz Ativa dialoga com o legado regional da ONU Mulheres na América Latina e Caribe, especialmente com a campanha Titulares Sin Siesgo (Manchetes Sem Viés), que desde 2020 promove debates, fóruns e ferramentas práticas para a desconstrução de estereótipos de gênero na mídia. No Brasil, a iniciativa avança com um produto pensado para adoção institucional: um encarte editorial para ser incorporado aos manuais de redação de grandes veículos, com diretrizes objetivas para que redações e equipes editoriais nomeiem o agressor quando a informação estiver confirmada e for publicável, evitem estruturas linguísticas que normalizem a violência, escolham verbos que descrevam com clareza o ato e a responsabilidade e aprimorem também a cobertura visual, reduzindo o uso de imagens que revitimizem ou transformem a violência em “tragédia sem autor”. Ao mesmo tempo, o material reconhece situações em que a voz passiva é necessária — por exemplo, quando o autor é desconhecido ou há restrições legais — e oferece alternativas que preservem a clareza sem comprometer a apuração.

O principal produto da campanha é justamente esse encarte técnico, desenvolvido com apoio de especialistas e estruturado para uso prático no cotidiano editorial. Ele reúne orientações sobre por que a linguagem importa, como dar nome ao agressor de forma responsável, quais padrões linguísticos devem ser evitados para não naturalizar a violência, como escolher verbos e construções que descrevam com precisão o ato e como qualificar também a dimensão visual da cobertura, ampliando a visibilidade da autoria e reduzindo enquadramentos que reforcem estigmas.

Nos próximos meses, a ONU Mulheres Brasil irá finalizar a versão do encarte com base em revisão técnica e editorial, incorporando contribuições de especialistas e parceiros; apresentar o material a veículos e lideranças editoriais, com o objetivo de apoiar a adoção das diretrizes em manuais de redação e rotinas de cobertura; promover articulação e sensibilização junto a escolas e espaços de formação em jornalismo, para ampliar a incorporação de uma perspectiva de gênero na prática profissional; e consolidar uma rede de boas práticas, conectando a experiência brasileira ao movimento regional por uma comunicação livre de estereótipos e mais responsável na cobertura de violências.

Ao propor mudanças concretas, da manchete ao enquadramento visual, a campanha reforça que a imprensa não apenas informa: ela também influencia normas sociais. A iniciativa parte de uma mensagem central: todo crime de violência contra a mulher tem um sujeito. É hora de ele aparecer na manchete.