Milly Lacombe: o que a violência digital contra mulheres revela sobre poder, gênero e sociedade
09.12.2025
Jornalista e escritora brasileira, Milly Lacombe é uma das vozes mais atentas às transformações da cultura digital e às violências que atravessam esse espaço. Com uma trajetória marcada pelo jornalismo esportivo e pela defesa pública dos direitos das mulheres, ela fala com franqueza sobre o que viveu e observa: a internet pode ser ferramenta de liberdade, mas também de silenciamento.
Nesta entrevista, realizada no contexto dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, Milly reflete sobre como a violência se expressa nas redes, o papel das plataformas e o desafio coletivo de reconstruir o tecido social para que mulheres possam existir e se expressar com segurança no ambiente digital.
Você tem falado muito sobre como o ambiente digital pode ser um espaço de liberdade, mas também de violência. Como você definiria a violência digital contra mulheres hoje, a partir da sua experiência pessoal e profissional?
A violência digital repete a social com o agravante de que, no digital, o agressor pode se esconder atrás de um perfil qualquer. Como as redes vivem dessas agressões, existe um incentivo tácito para que agressores sigam agredindo.
Nos últimos anos, jornalistas, atletas e criadoras de conteúdo têm sido alvos frequentes de ataques online. O que esses episódios revelam sobre a cultura de gênero e de poder nas redes?
Revelam a força da estrutura. Como não há punição, já que as redes sociais lucram com os ataques, a estrutura das opressões aparece em todo o seu relevo e com toda a sua força.
Quando o assédio vem em massa, em forma de comentários, ameaças ou campanhas coordenadas, que efeitos isso produz em quem é alvo? Como esse tipo de violência muda a forma como mulheres participam do debate público?
A violência tem como objetivo intimidar e excluir mulheres do debate público. Muitas pensam: não vou me meter nessa treta porque vai sobrar para mim. A gente pensa dez vezes, recua, omite, silencia. O objetivo da agressão é justamente silenciar e, sob esse ponto de vista, ela é um sucesso.
Você vem do jornalismo esportivo, um ambiente onde a misoginia digital é muito visível. Quais são as formas mais recorrentes de violência que você observa nesse campo e o que tem mudado (ou não) nos últimos anos?
A violência no meio esportivo é escancarada, mas também pode ser sutil. O passivo-agressivo corre com liberdade. Homens que dizem jogar como aliados, mas que não perdem a piada machista. O colega que diz ao vivo “mas eu sempre te defendo” entre risos e como se a suposta defesa, sabe-se lá do que, nos oferecesse alguma proteção e como se fosse da proteção dele que precisávamos. Os colegas raramente (para não escrever nunca) cobram-se uns aos outros sobre o machismo, mas são capazes de cobrar as mulheres sem sequer se constrangerem. A agressão escancarada faz menos mal do que a camuflada.
A violência digital raramente fica só no espaço virtual. Quais são, para você, os impactos reais, emocionais, profissionais e até físicos, dessa violência?
O cansaço. Tem dias que a vontade é desistir. Acho que essa exaustão é o efeito mais nocivo. Mas agora existem algumas de nós por aí e nessas horas a gente se incentiva e o cansaço passa.
Em sua opinião, qual é o papel das plataformas, da imprensa e das instituições públicas no enfrentamento à violência digital de gênero? O que ainda falta fazer?
Falta fazer basicamente tudo. Primeiro parar de querer lucrar com o sangue alheio. O livro A Máquina do Caos, de Max Fisher, conta em detalhes como o confronto é lucrativo. Seria preciso compreender liberdade de expressão como conceito coletivo e não individual.
O tema dos 21 Dias deste ano é justamente a violência digital contra mulheres. Que mensagem você deixaria para quem acredita que “é só internet” e para quem quer ser parte da solução?
A Internet pode, assim como um martelo, ser usada para construir ou destruir. Quem decide o que vai ser é a sociedade. Vivemos uma plutocracia, que é o regime no qual uma pequena elite financeira faz as leis e as exerce. Tirar poder dessa elite financeira é o primeiro passo. Reconstruir o tecido social, nos enxergar como comunidade, saber que dependemos uns dos outros para existir. Acho que esse é o passo-a-passo.
