Novo relatório da ONU Mulheres destaca autocensura e avanço da violência online contra mulheres jornalistas
30.04.2026
Quase metade das mulheres jornalistas relata autocensura nas redes sociais, e 22% em seu trabalho, devido à violência online, segundo nova análise da ONU Mulheres.
Nova York, 28 de abril de 2026. Às vésperas do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em 3 de maio, a ONU Mulheres, TheNerve e parceiros lançam um novo relatório que destaca as formas crescentes e cada vez mais sofisticadas de violência online enfrentadas por mulheres na vida pública, especialmente mulheres jornalistas e profissionais de mídia.
De acordo com o relatório “Ponto de Virada: Violência Online, Impactos, Manifestações e Reparação na Era da IA”, 12% das defensoras de direitos humanos, ativistas, jornalistas, trabalhadoras da mídia e outras comunicadoras públicas relatam ter vivenciado o compartilhamento não consensual de imagens pessoais, incluindo conteúdo íntimo ou sexual. 6% dizem ter sido vítimas de “deepfakes”, enquanto quase uma em cada três recebeu investidas sexuais não solicitadas por meio de mensagens digitais.
O relatório revela que esse tipo de abuso é frequentemente deliberado e coordenado, desenhado para silenciar mulheres na vida pública ao mesmo tempo em que mina sua credibilidade profissional e sua reputação pessoal. Essa estratégia já está produzindo efeitos: 41% de todas as mulheres respondentes disseram que se autocensuram nas redes sociais para evitar abusos, enquanto 19% relataram autocensura em seu trabalho profissional como resultado da violência online. Entre mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia, o cenário é ainda mais preocupante: 45% desse grupo relatou autocensura nas redes sociais em 2025, um aumento de 50% desde 2020, e quase 22% relataram autocensura em seu trabalho.
Outras tendências relevantes apontam para um aumento de ações legais e de denúncias às forças de segurança entre mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia. Em 2025, elas tinham o dobro de probabilidade de denunciar incidentes de violência online à polícia (22%) em comparação com 2020, quando esse índice era de 11%. Quase 14% agora estão tomando medidas legais contra perpetradores, facilitadores ou seus empregadores, acima dos 8% registrados em 2020, refletindo maior conscientização e uma pressão mais forte por responsabilização.
Essa violência tem um impacto grave na saúde e no bem-estar das mulheres. O relatório revela que quase um quarto (24,7%) das mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia entrevistadas foi diagnosticado com ansiedade ou depressão relacionada à violência online que vivenciaram, e quase 13% relataram diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
“A IA está tornando o abuso mais fácil e mais danoso, e isso está alimentando a erosão de direitos duramente conquistados em um contexto marcado pelo retrocesso democrático e pela misoginia em rede. Nossa responsabilidade é garantir que sistemas, leis e plataformas respondam com a urgência que essa crise exige”, afirmou Kalliopi Mingerou, chefe da Seção de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da ONU Mulheres.
Persistem lacunas significativas na proteção legal contra a violência online. Como destacou o Banco Mundial no ano passado, menos de 40% dos países têm leis em vigor para proteger mulheres contra assédio virtual ou perseguição virtual. Como resultado, 44% das mulheres e meninas do mundo, aproximadamente 1,8 bilhão de pessoas, continuam sem acesso à proteção legal.
O relatório “Tipping point: Online violence impacts, manifestations, and redress in the AI age” está disponível em Inglês e integra uma série mais ampla que examina como a violência online limita a participação das mulheres na vida pública na era da IA. O estudo foi encomendado pela ONU Mulheres no âmbito do Programa ACT para Acabar com a Violência contra as Mulheres, financiado pela União Europeia. Foi produzido em parceria com pesquisadoras e pesquisadores da Iniciativa de Integridade da Informação da TheNerve e da City St George’s, University of London, em colaboração com o International Center for Journalists e a UNESCO. As autoras e autores do relatório são: Dr. Julie Posetti, Kaylee Williams, Dr. Lea Hellmueller, Dr. Pauline Renaud, Nabeelah Shabbir e Dr. Nermine Aboulez.
