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A ONU Mulheres é a organização das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres.

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Segurança Online: O que toda mulher e menina deve saber



18.11.2025


O mundo digital prometeu conexão e empoderamento, mas, para milhões de mulheres, tornou-se um campo de caça. Meninas em idade escolar estão lidando com imagens falsas de nudez circulando nas mídias sociais. Mulheres em altos cargos empresariais são cada vez mais alvo de deepfakes e campanhas coordenadas de assédio. E mulheres na vida pública enfrentam uma enxurrada de violência: uma em cada quatro jornalistas e uma em cada três parlamentares em todo o mundo relatam ameaças online de violência física, incluindo ameaças de morte. Vidas diferentes, contextos diferentes, o mesmo padrão.

Segurança Online: O que toda mulher e menina deve saber/violencia contra as mulheres destaques 16 dias de ativismo

Isso é violência online, uma das formas de violência de gênero que mais cresce e está se espalhando por fronteiras e plataformas, ameaçando mulheres e meninas em todos os lugares, tanto online quanto offline. Especialistas dizem que o problema é vasto, entre 16% e 58% das mulheres em todo o mundo relatando violência ou assédio online. Além disso, agora, novas tecnologias como a inteligência artificial estão piorando a situação. O abuso baseado em imagens está explodindo, com uma estimativa de 90% a 95% dos deepfakes online retratando mulheres de maneira sexualizada.

Essa violência não fica apenas online. A violência digital pode destruir a saúde mental, arruinar relacionamentos e prejudicar carreiras em segundos. Também pode se espalhar para a vida real, escalando para perseguição (stalking) ou violência física, até mesmo a morte. A violência digital silencia mulheres e meninas que deveriam ter a liberdade de se expressar. A ONU Mulheres alerta que esta nova linha de frente da violência contra as mulheres está se intensificando e se espalhando rapidamente. Reconhecê-la e detê-la é urgente. Embora os agressores e as plataformas de tecnologia que permitem, anunciam e lucram com o abuso digital devam ser responsabilizados, mulheres e meninas também precisam de informações e ferramentas para identificar os primeiros sinais de abuso, agir e reivindicar seu espaço digital.

O que é violência digital?

Violência digital (também chamado de violência facilitada pela tecnologia contra mulheres e meninas) abrange um amplo espectro de comportamentos violentos. Pode ser:

  • Assédio online e perseguição virtual (cyberstalking): mensagens repetidas e indesejadas, cyber-flashing (envio de imagens íntimas não solicitadas), creepshots (fotos tiradas sorrateiramente), vigilância como rastreamento da sua localização ou monitoramento da sua atividade.
  • Abuso baseado em imagens e deepfake: compartilhamento de imagens privadas sem consentimento, ou criação de conteúdo sexual gerado por IA através de modificação, fusão ou sobreposição de fotografias e vídeos para criar deepfakes. Também pode ser chamado de pornografia de vingança (revenge porn).
  • Pornografia violenta: imagens de agressão sexual e violência de gênero em pornografia amplamente disponíveis na internet, que estão normalizando e perpetuando a violência contra mulheres e meninas.
  • Trolling, ameaças e chantagem: comentários abusivos destinados a silenciar ou intimidar, discurso de ódio baseado em gênero, ameaça de compartilhar informações pessoais, fotos ou vídeos de alguém.
  • Abuso digital em relacionamentos: uso de aplicativos ou mídias sociais para controlar, pressionar ou isolar uma parceira.
  • Aliciamento online (online grooming): uso de plataformas digitais para construir confiança ou um relacionamento com alguém, muitas vezes uma criança ou adolescente, com a intenção de exploração sexual e tráfico.
  • Doxxing: publicação de informações pessoais online para colocar em perigo ou intimidar.
  • Roubo de identidade: impersonação e a criação de perfis falsos.
  • Controle de acesso: restringir ou monitorar o acesso de uma mulher a dispositivos compartilhados, internet ou fontes de energia.

Quais são as consequências do abuso digital e da violência online?

De Manila à Cidade do México, de Nairóbi à Cidade de Nova York, as mulheres estão nas linhas de frente da violência digital. Isso pode acontecer em ambientes rurais ou urbanos e em todas as faixas de renda. De ameaças anônimas a abuso e controle por parceiros íntimos, pode assumir muitas formas e formatos.

Por exemplo, mulheres que vivem em lares de baixa renda ou em contextos rurais frequentemente compartilham dispositivos ou dependem de outras pessoas para ter acesso a telefones, computadores ou à Internet. Nesses ambientes, os agressores restringem ou monitoram o acesso a dispositivos ou fontes de energia e exploram a alfabetização digital limitada para cometer violência tanto econômica quanto digital.

Os alvos são familiares: jovens, políticas, jornalistas, defensoras de direitos humanos e ativistas são frequentemente atacadas com insultos sexistas, racistas ou homofóbicos. Para mulheres migrantes e racializadas, aquelas com deficiência e pessoas LGBTQ+, o abuso pode ser ainda mais extremo, combinando misoginia com outras formas de ódio e exclusão.

E está piorando. Pesquisas da ONU Mulheres mostram que, auxiliados pela tecnologia baseada em IA, esses abusos estão crescendo rapidamente em escala e sofisticação. As consequências são graves e vão muito além da tela:

  • Nas Filipinas, uma análise revelou que 83% das sobreviventes sofreram danos emocionais, 63% agressão sexual e 45% danos físicos ligados diretamente ao abuso online.
  • No Paquistão, o assédio online tem sido relacionado a feminicídio, suicídio, violência física, perda de emprego e ao silenciamento de mulheres e meninas em espaços online.
  • Nos Estados Árabes, 60% das mulheres usuárias de internet relataram ter sido expostas à violência online.
  • Na África, 46% das mulheres parlamentares disseram ter recebido ataques online.
  • Na América Latina e no Caribe, 80% das mulheres na vida pública relataram restringir suas atividades online por medo de abuso.

O padrão é claro: a violência digital tem consequências no mundo real. Está cada vez mais ligada ao extremismo violento, silencia as vozes das mulheres na política e na mídia, e pode até levar a feminicídios quando a tecnologia se torna uma arma para perseguição ou coerção.

Como identificar os sinais e se proteger da violência digital

Agora que você sabe o que é violência digital, o próximo passo é aprender a identificar os sinais de alerta em seu próprio feed e dispositivos.

É realmente violência se começa pequena?

Sim. A violência digital frequentemente começa com “pequenas coisas”: um parceiro exigindo sua senha ou coagindo você a compartilhar imagens que a deixam desconfortável, verificações constantes (check-ins), ou uma pessoa que você conhece enviando mensagens inadequadas, ou até mesmo comentários anônimos que a fazem sentir desconfortável ou com medo.

O que acende a luz vermelha?

  • Ameaças de compartilhar fotos privadas se você não cumprir as exigências.
  • Comportamento controlador sobre conversas e contatos que você possa ter, por exemplo, em seu telefone.
  • Comentários ou mensagens diretas (DMs) de assédio e abuso que continuam chegando mesmo depois de você bloquear alguém.
  • Imagens falsas ou adulteradas suas aparecendo subitamente online.
  • Impersonação, exclusão ou campanhas de difamação em grupos online.

Por que parece tão isolador?

O abuso prospera no silêncio e no anonimato dos agressores. Pode fazer você duvidar de si mesma, mas reconhecer o padrão precocemente é uma das maneiras mais fortes de detê-lo.

Eu identifiquei os sinais. E agora?

Há passos práticos que você pode tomar imediatamente:

  • Bloqueie e denuncie. Onde disponível, use as ferramentas da plataforma para cortar o contato e registrar uma denúncia. Não é coincidência que uma das perguntas mais feitas online seja: “como denunciar assédio no Instagram”. Milhões de mulheres estão procurando as mesmas respostas.
  • Impeça a disseminação. Use as ferramentas disponíveis para remover imagens e vídeos privados compartilhados sem consentimento, como Take it down e Stop non-consensual image-abuse.
  • Guarde as provas. Capturas de tela, links, carimbos de data/hora. Mantenha um registro. Se você optar por denunciar, essa informação é vital.
  • Conte a alguém em quem confia. Não carregue isso sozinha. Compartilhe o que está acontecendo com um amigo, familiar ou organização em quem você confia.
  • Proteja suas contas. Ative a autenticação de dois fatores, revise as configurações de privacidade e verifique seus dispositivos em busca de spyware ou aplicativos de rastreamento.
  • Procure ajuda. Muitos países agora têm linhas de apoio (hotlines), ONGs ou unidades policiais treinadas para responder à violência digital. Verifique os recursos na seção abaixo.

E se a violência acontecer com outra pessoa?

Se você testemunhar o abuso acontecendo, não fique em silêncio. Pesquisas mostram que, quando observadores se manifestam ou denunciam comportamentos prejudiciais, isso desencoraja ataques adicionais e ajuda as plataformas a detectar o abuso mais rapidamente. Pequenas ações, como uma denúncia, um comentário de apoio ou o compartilhamento de um recurso, podem fazer uma grande diferença.

Posso tornar meu feed mais seguro?

Sim. A maioria das plataformas tem recursos de segurança que permitem filtrar comentários, bloquear contas abusivas e limitar quem pode marcar você. Use-os. Eles são projetados para devolver a você algum controle.

E se eu me culpar?

Não faça isso. O abuso nunca é sua culpa. A responsabilidade sempre é do agressor, e não da sobrevivente.

Construindo espaços digitais mais seguros juntos

As leis estão acompanhando esta nova realidade. No México, a Lei Olimpia reconhece e pune a violência digital. Nos Estados Unidos da América, a Lei Take It Down exige a remoção de imagens íntimas não consensuais. No Reino Unido, a Lei de Segurança Online obriga as plataformas a proteger os usuários contra danos online.

Seus direitos variam dependendo de onde você mora, mas conhecimento é poder. O recurso legal, embora desigual, pode ser uma ferramenta crítica para as sobreviventes e a militância continua a fortalecer as proteções em todo o mundo.

Mas as leis sozinhas não são suficientes. Os agressores devem ser responsabilizados, as plataformas devem projetar a segurança por padrão, e mulheres e meninas em todo o mundo precisam de maior alfabetização digital e resiliência para reconhecer e denunciar o abuso.

O que você pode fazer?

  • Denuncie. Se você vir abuso acontecendo, não o ignore. Apoie o alvo.
  • Compartilhe recursos. Direcione amigas para linhas de apoio a sobreviventes, orientação legal e este artigo.
  • Faça o teste. Teste sua capacidade de identificar os sinais de abuso e compartilhe-o para ajudar outras pessoas a se manterem seguras.

Precisa de ajuda?

Se você ou alguém que você conhece está sofrendo assédio online ou abuso digital, há ajuda disponível. Estas organizações e diretórios podem conectá-lo a serviços de apoio regionais e globais confiáveis: Nota: A ONU Mulheres não é responsável pelas informações fornecidas por fontes externas.

  • O Disque 180 é o a Central de Atendimento à Mulher, criada e mantida pelo Governo Brasileiro. Funciona online e pelo telefone, apoiando mulheres com informação e encaminhamento de denúncias para os órgãos de apoio responsáveis.
  • A SaferNet Brasil oferece orientação especializada e canais seguros para denúncias de crimes e violações de direitos humanos na internet, incluindo violência digital contra mulheres, além de apoio em segurança digital e recursos educativos.
  • O Manual de Campo de Assédio Online: Diretório de Organizações de Ajuda é um diretório especializado que lista organizações regionais e internacionais que ajudam jornalistas, ativistas e outras que enfrentam abuso online, oferecendo aconselhamento sobre segurança digital, encaminhamentos e contatos de emergência.
  • A Cybersmile Foundation fornece um serviço global de apoio emocional e direciona usuárias que sofrem cyberbullying ou abuso online a recursos úteis.
  • O Take it down auxilia na remoção de nudez online.
  • O Stop non-consensual image-abuse ajuda vítimas de pornografia de vingança.
  • O Chayn Global Directory oferece uma lista selecionada de organizações e serviços que apoiam sobreviventes de violência baseada em gênero, tanto online quanto pessoalmente, com opções em várias regiões e idiomas.
  • O NO MORE Global Directory é um diretório mundial de linhas de apoio e serviços especializados em violência sexual e abuso doméstico, cobrindo quase todos os países.
  • O International Women’s Media Foundation: Online Violence Response Hub fornece treinamento, consultas de segurança digital e assistência de emergência para jornalistas e mulheres que trabalham na mídia e enfrentam assédio online.
  • Child Helpline International fornece linhas de apoio para crianças e jovens em todo o mundo.
  • Access Now Digital Security Helpline (24/7) fornece apoio rápido de segurança digital para a sociedade civil, jornalistas e defensores dos direitos humanos.
  • A linha de apoio Lila conecta usuárias a linhas de ajuda e serviços locais para violência baseada em gênero.

Se você se sentir insegura ou em perigo imediato, ligue para a polícia (190), a Central de Atendimento à Mulher (180) ou o Disque Direitos Humanos (100).

Reivindicando nosso mundo digital

Os espaços online devem ser seguros para todas as mulheres e meninas. A mesma tecnologia que pode amplificar as vozes das mulheres também pode ser usada como arma contra elas. Ao nos mantermos informados, denunciando o abuso e permanecendo unidas, podemos reivindicar o mundo digital e torná-lo um espaço seguro onde a igualdade, a segurança e o respeito possam prosperar.