• Português

A ONU Mulheres é a organização das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres.

Brasil

“Tivemos uma responsabilidade muito grande de dar exemplo e compartilhar informação”, diz jovem indígena venezuelana sobre a Covid-19 em Roraima



12.04.2021


Quando a COVID-19 começou a se alastrar com mais rapidez no Brasil, a jovem Yolimar, hoje com 25 anos, morava com o esposo e duas filhas pequenas em uma ocupação espontânea em Boa Vista (RR). Venezuelana e da etnia warao, ela se preparou não apenas para mobilizar outras mulheres para a importância da prevenção contra o novo coronavírus, mas também para tentar aliar suas crenças e culturas à ciência e à medicina tradicional

 

“Tivemos uma responsabilidade muito grande de dar exemplo e compartilhar informação, diz jovem indígena venezuelana sobre a Covid 19 em Roraima/noticias mulheres migrantes mulheres indigenas igualdade de genero geracao igualdade direitos humanos direitosdasmulheres covid19

Venezuelana da etnia warao, Yolimar foi capacitada pela ONU Mulheres para ser mobilizadora em ações de prevenção contra a COVID-19 em Roraima (Foto: Divulgação / Fraternidade – Federação Humanitária Internacional – FFHI)

 

“Vim para o Brasil há quase três anos e tive a sorte de chegar em um momento em que ainda não havia muitas famílias indígenas nos abrigos de Pacaraima, no estado de Roraima. Quando vim, cheguei com meu esposo e minhas duas filhas. Na época, a maior tinha cinco anos, e a menor tinha apenas um. Chegamos e nossa família foi recebida de braços abertos no Abrigo Janokoida. Lá, contávamos com um espaço com segurança para minhas filhas, com comida muito boa e com muitas pessoas venezuelanas.

Depois de um ano e sete meses vivendo em Pacaraima, decidi vir para Boa Vista. Quando chegamos, fomos morar em uma ocupação que hoje não existe mais. E logo que cheguei, me contaram sobre essas conversas que a ONU Mulheres realizava lá uma vez por semana. Disseram que era uma conversa muito boa, que acontecia todas as sextas, e que quem era encarregada era uma mulher colombiana, que também tinha origem indígena. Isso me interessou muito, chamou minha atenção. Então, comecei a participar e não perdia uma oportunidade. Estava lá toda semana.

No começo, falávamos sobre diferentes temas. Por exemplo, falávamos sobre nossas crenças e sobre remédios caseiros que nossas famílias costumavam preparar. Cada pessoa falava de sua experiência, trocávamos informação. Era uma conversa de convivência, entre mulheres indígenas que podiam ter opiniões diferentes, mas que tinham esse sangue em comum.

O que foi fundamental para construir confiança era que Erika, que coordenava as conversas por parte de ONU Mulheres, também era de origem indígena. Isso é muito importante para nós, porque quando uma mulher indígena é convidada para uma conversa sobre suas crenças e seus costumes por outra mulher indígena, nos identificamos mais, construímos mais confiança. Sempre tivemos muito carinho por Erika, somos muito gratas.

Depois de participar de algumas conversas, chegou a notícia sobre a pandemia de COVID-19 e logo esse tema entrou também em nossas atividades semanais. Em muito pouco tempo, a doença se espalhou em Boa Vista. Ninguém mais podia sair de casa sem máscara, estávamos todas muito preocupadas. Então decidimos, por conta da pandemia e para preservar as pessoas que moravam dentro da ocupação, que teríamos que mudar a estratégia. Naquele momento, a estratégia foi capacitar pessoas que viviam lá dentro, porque logo já não seria mais possível permitir a entrada de pessoas de fora na ocupação, seria muito perigoso. Eu e outra mulher fomos convidadas e aceitamos.

Assim que aceitei, recebi um material com muita informação sobre a COVID-19. Eu lia bastante, me preparava, e toda sexta me reunia com outras mulheres indígenas da ocupação para falar sobre a doença. Todas concordaram que as conversas também tinham que passar a ser em grupos menores, com poucas mulheres, para prevenir a doença. Falávamos em uma semana com cinco mulheres, na semana seguinte, com outras cinco.

Uma dificuldade que enfrentamos naquele momento é que as mulheres indígenas não acreditam nos médicos. Acreditam apenas em orações, no nosso rastro de cultura. Então, coube a mim a responsabilidade de tentar mudar isso. Pouco a pouco fui conversando com as mulheres, compartilhando informação, até que chegamos a um momento que todas aceitaram que era uma pandemia. E isso aconteceu quando algumas pessoas de dentro da ocupação, pessoas indígenas, começaram a adoecer e isso acabou impressionando muito a todo mundo.

Naquele momento, se uma pessoa viesse de fora, não teríamos tido o mesmo impacto. A pandemia estava muito forte, e quem morava na ocupação tinha medo de alguém de fora entrar e contaminar as pessoas, então as mulheres não iriam mais participar. Depois que as mulheres começaram a ver pessoas doentes lá dentro da ocupação, eu e a outra mobilizadora tivemos uma responsabilidade muito grande de dar exemplo e compartilhar informação.

Falávamos nas conversas que era preciso prevenção, porque a doença já havia chegado ao nosso espaço. Falávamos tudo isso, e reforçávamos que não era possível saber se uma pessoa que falava contigo estava contaminada ou não. Tudo isso era muito sério e as mulheres captaram isso de verdade. Passaram a usar máscaras, a passar álcool em gel nas mãos e a cuidar muito das crianças. A ocupação costumava ser muito descuidada com relação às crianças, não levavam isso a sério, as crianças sempre estavam sujas, colocavam os alimentos na boca com as mãozinhas sujas. E isso nos preocupava muito, então passei a dar exemplo e chamava a atenção das mães sobre as crianças também, para que lavassem sempre as mãos, não andassem com as roupas sujas, que isso tudo era muito perigoso.

Eu, como indígena e como amiga das outras famílias indígenas, tinha que dar o exemplo. As pessoas olhavam se eu estava fazendo o que dizia que era preciso fazer. E para as pessoas que não entendiam espanhol, eu falava no idioma warao. A maioria das mulheres indígenas não entende bem o espanhol, menos ainda o português, então eu falava em meu idioma também.

Em dezembro e janeiro, a ocupação foi desfeita, o dono do terreno solicitou o lugar de volta. As pessoas brasileiras foram interiorizadas e as indígenas vieram para o abrigo Jardim Floresta. Nós mudamos de casa, mas a pandemia ainda existe. Mesmo que ainda existam pessoas que não acreditem, ela está aí, e é uma doença muito perigosa. Não é uma doença comum ou um surto, é uma pandemia. Aqui no abrigo eu me sinto mais segura, é mais limpo, temos mais segurança para minhas filhas.

Ter participado dessa experiência com a ONU Mulheres me permitiu saber mais sobre a COVID-19 e compartilhar essa informação tão importante com outras pessoas. E consegui fazer isso com outras mulheres indígenas, falando em nosso idioma, para que elas entendessem bem. Sou muito grata por esta oportunidade, porque com esse conhecimento, consigo proteger um pouco mais a mim e a outras mulheres indígenas e a suas famílias.”

——-

A jovem Yolimar é uma mulher indígena, da etnia warao, que veio para o Brasil em decorrência da emergência humanitária na Venezuela. Na capital, Boa Vista, diante da falta de moradia e da escassez de recursos, morou com outras famílias em uma ocupação espontânea. Em 2020, o terreno passou por uma reintegração de posse e todas as famílias precisaram ser realocadas. Desde que chegou ao Brasil, Yolimar tem garantido sua participação comunitária: foi professora para crianças indígenas, apoiou outras agências da ONU em ações de prevenção à violência baseada em gênero e, atualmente, trabalha com o tema de saúde sexual e reprodutiva com mulheres indígenas. Em meio à pandemia de COVID-19, sua atuação como mobilizadora da ONU Mulheres foi fundamental para mobilizar outras mulheres warao para as medidas de prevenção necessárias contra o novo coronavírus. Sua história conecta-se diretamente ao ODS 5, para igualdade de gênero, e ao ODS 3, para promoção da boa saúde e do bem-estar.

Apoio da ONU às mulheres refugiadas, migrantes e solicitantes de refúgio – A ONU Mulheres tem atuado junto a mulheres migrantes, solicitantes de refúgio e refugiadas e a partir do programa Liderança, empoderamento, acesso e proteção para mulheres migrantes, solicitantes de refúgio e refugiadas no Brasil (LEAP). O programa é conduzido em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), com

financiamento do Governo de Luxemburgo. Assinado em 2018 e em implementação desde 2019, o programa tem como objetivo apoiar o governo brasileiro na resposta adequada às necessidades dessa população no Brasil. Foi a partir do LEAP que as três agências da ONU iniciaram, ainda em 2020, a Força-Tarefa de Comunicação com as Comunidades – estratégia de resposta humanitária baseada na facilitação do acesso a informações que salvam vidas por parte das comunidades afetadas, para que as pessoas possam tomar as melhores decisões para si e para as comunidades onde estão inseridas.