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A ONU Mulheres é a organização das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres.

Brasil

Todo espaço, online ou offline, deve ser um espaço de segurança, dignidade e igualdade para todas as mulheres e meninas



26.11.2025


Discurso da Subsecretária-Geral da ONU e Diretora Executiva da ONU Mulheres, Sima Bahous, na cerimônia oficial das Nações Unidas pelo Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres

A tecnologia digital abriu uma nova fronteira para uma injustiça antiga.

Espaços digitais que deveriam fortalecer a inclusão e a conexão têm, com demasiada frequência, impulsionado misoginia, discurso de ódio e extremismo, e seu resultado é abuso e danos reais. Acabamos de ouvir em primeira mão, por Mona, como isso devasta vidas. Mona, você nos inspirou a todas e todos com sua coragem e também com seu ativismo. Também ouvimos nosso estimado Presidente da Assembleia Geral sobre vivências pessoais e profissionais relacionadas à violência contra as mulheres.

Em algumas partes do mundo, mais de 50 por cento das mulheres relatam ter vivenciado violência online. Embora os estudos ainda não sejam uniformes, temos dados da União Europeia, por exemplo, que indicam que uma em cada dez mulheres já sofreu assédio digital desde os 15 anos de idade. Nos Estados Árabes, 60 por cento das mulheres que usam a internet relatam ter sido expostas à violência online no último ano. E, nos Bálcãs Ocidentais e países da Europa Oriental, mais da metade das mulheres presentes online na região já enfrentou algum tipo de violência facilitada por tecnologias ao longo da vida.

Elas não estão sozinhas. Mulheres e meninas em todos os lugares, incluindo algumas de nós aqui neste palco, seja na vida pública ou privada, na política, no esporte, no entretenimento ou na mídia, convivem com essa ameaça constante. Muitas e muitos de nós aqui hoje temos também vasta experiência pessoal com este tipo de violência.

Por trás de cada estatística há uma mulher silenciada, uma menina desencorajada, uma sociedade diminuída. Quando mulheres são expulsas de espaços digitais, todas e todos somos privados de sua voz, sua liderança e sua contribuição.

Movimentos feministas e defensoras de direitos digitais soaram o alarme, fizeram advocacy, criaram redes de apoio a sobreviventes e pressionaram por mudanças. Seu trabalho está fazendo diferença: dois terços dos países agora relatam ações específicas sobre violência digital.

O programa global da ONU Mulheres sobre violência digital, apoiado pela Espanha, atua mundialmente para transformar dados sobre violência digital em ação e advocacy em políticas públicas. Prestamos apoio a serviços, esforços de prevenção e novos marcos legais e de políticas, sempre garantindo o papel central das organizações de direitos das mulheres, que enfrentam um cenário cada vez mais complexo e de retrocessos.

Nosso Programa ACT para Acabar com a Violência contra as Mulheres, apoiado pela União Europeia, financia diretamente 60 organizações de direitos das mulheres em todo o mundo. A ACT AI School está capacitando mais de 150 organizações da sociedade civil com ferramentas para segurança digital, resiliência e competências em IA. E, por meio do Fundo Fiduciário da ONU para Eliminar a Violência contra as Mulheres, apoiamos organizações da linha de frente que prestam serviços essenciais e advocacy. Além disso, por meio da Iniciativa Spotlight, demonstramos o poder de uma ação coordenada, em escala de sistema, para romper o ciclo da violência contra mulheres, tanto online quanto offline.

Os desafios são formidáveis. Sobreviventes enfrentam descrédito. Agressores desfrutam de impunidade. A implementação de medidas corretivas ou de proteção fica para trás. Organizações de mulheres são privadas dos recursos de que precisam e merecem, enquanto plataformas tecnológicas extremamente ricas operam com supervisão limitada.

Mas nós também somos formidáveis. Temos soluções para enfrentar esses desafios.

Primeiro, devemos reconhecer a violência digital como violência real. Nomeá-la, mensurá-la, rejeitá-la. E, ao fazê-lo, devemos trabalhar com jovens, com mulheres e homens, meninas e meninos, enfrentando normas prejudiciais, rejeitando padrões de abuso e transformando percepções nocivas de masculinidade.

Segundo, devemos responsabilizar sistemas de justiça e empresas de tecnologia. Sistemas de justiça precisam acompanhar o ritmo da tecnologia, e empresas de tecnologia devem ser responsabilizadas pela segurança das mulheres.

Terceiro, devemos investir em prevenção e resposta. O custo da violência contra mulheres é imenso, o custo da prevenção é muito menor, e, ainda assim, esse trabalho crucial permanece cronicamente subfinanciado.

A 70ª Comissão sobre a Situação das Mulheres (CSW70) se aproxima. Os Estados-Membros considerarão o acesso à justiça como tema prioritário e, de forma crucial, isso incluirá justiça para mulheres, meninas e jovens no espaço digital.

A CSW70 oferece uma oportunidade inestimável para fortalecer o Estado de Direito e os sistemas de justiça para mulheres e meninas, incluindo por meio da consolidação do compromisso global com legislação abrangente, serviços, medidas de responsabilização – inclusive para plataformas – e muito mais. Será uma chance de transformar a tecnologia em uma força promotora de igualdade de gênero e empoderamento de mulheres e meninas, como deve ser.

A violência digital não é inevitável, nem um preço inescapável do progresso. É, na verdade, uma perversão do progresso, um uso abusivo de produtos da visão e da engenhosidade humana.

Devemos todas e todos nos indignar com o fato de ferramentas que deveriam nos conectar e unir serem utilizadas para intimidar e silenciar mulheres e meninas, em prejuízo de toda a sociedade. Nossa recusa em aceitar isso garante a mudança. Essa mudança é entregue por soluções que já temos em mãos. Todo espaço, online ou offline, deve ser um espaço de segurança, de dignidade e de igualdade para todas as mulheres e meninas. Continuaremos trabalhando com vocês para tornar isso realidade, para cada mulher e cada menina, para cada menino e também para todas e todos os jovens, em todos os lugares e sempre.

Muito obrigada.